Quais são os critérios utilizados para a escolha dos nomes dos veículos? Essa questão intriga muitas pessoas e a resposta vai além da simples criatividade: envolve estratégias de mercado, estudos linguísticos, posicionamento da marca e até aspectos culturais e emocionais.
No competitivo setor automotivo, a seleção do nome adequado para um carro pode ser crucial para determinar o sucesso ou a falência de um modelo, especialmente em uma perspectiva global.
Enquanto alguns nomes se tornam verdadeiros ícones e ajudam a moldar legados duradouros, outros precisam ser revisados ou ajustados para atender diferentes mercados devido a barreiras linguísticas ou conotações culturais inesperadas.
Um exemplo notório é o Mazda Laputa, um compacto japonês cujo nome, embora inofensivo em sua origem, causou desconforto em países hispanofalantes. Esta situação ilustra como a escolha do nome de um carro pode afetar diretamente sua aceitação no mercado.
Mazda Laputa, carro japonês que gerou controvérsia entre falantes de espanhol (Foto: Divulgação)
O processo de escolha dos nomes dos carros: muito além da imaginação
Cada fabricante de automóveis possui um método próprio para definir os nomes de seus novos modelos.
Algumas montadoras optam por uma abordagem mais pragmática, utilizando letras, números e siglas para classificar categorias, versões ou gerações – prática comum entre BMW, Mercedes-Benz e Peugeot.
Outras marcas preferem usar nomes que carregam significados simbólicos, associando seus veículos a conceitos como força, liberdade, agilidade ou elegância.
Jessica Fini, vice-presidente assistente de Comunicação da Honda nos Estados Unidos, compartilhou que a empresa organiza reuniões com equipes de planejamento, marketing e vendas para elaborar uma lista inicial de possíveis nomes.
A partir dessa lista inicial, inicia-se uma votação interna onde os nomes mais promissores são avaliados com base em critérios como sonoridade, originalidade, relevância para o modelo e viabilidade legal e linguística nos diversos mercados.
“Normalmente escolhemos três opções de nomes e caso alguma não seja viável, optamos por outra das restantes. Se todos forem recusados, voltamos à lista original para reiniciar o processo”, detalhou Fini.
Siglas significativas: a lógica por trás dos nomes abreviados
A Honda serve como exemplo da utilização de siglas com significados técnicos ou conceituais em sua linha de SUVs.
O modelo HR-V representa Hi-rider Revolutionary Vehicle (Veículo Revolucionário de Alta Elevação), enquanto o CR-V significa Comfortable Runabout Vehicle e o WR-V é conhecido como Winsome Runabout Vehicle.
A Volkswagen também adota essa lógica ao nomear seus SUVs, escolhendo termos que começam com a letra “T”, como T-Cross, Taos e Tiguan – sendo o mais recente o Volkswagen Tera.
“Houve longas discussões até encontrarmos o nome do nosso novo SUVW. Tera é uma denominação forte que carrega muitas histórias. Acreditamos que ele será um marco no mercado brasileiro”, afirmou Ciro Possobom, CEO da Volkswagen do Brasil.
Nomenclatura numérica e códigos internos: a abordagem Porsche
A Porsche adota uma metodologia distinta. O primeiro veículo da marca, o 356, recebeu seu nome baseado no número do projeto desenvolvido.
O icônico 911 teve sua nomenclatura ligada à estratégia de diferenciação no mercado norte-americano devido à proibição da Peugeot sobre nomes que continham “0” no meio.
Porsche 911 (Foto: Divulgação/Porsche)
Outros modelos da fabricante, como 718, Spyder e Cayenne possuem histórias próprias frequentemente associadas a conceitos esportivos ou geográficos – tema que merece uma análise exclusiva posteriormente.
Nomes com significado: cultura, tradição e emoção
Certaines fabricantes apostam em denominações repletas de simbolismo cultural; por exemplo, a Lamborghini costuma nomear seus veículos em homenagem ao universo das touradas espanholas.
Dentre os exemplos estão o Murciélago – touro lendário que sobreviveu a 28 estocadas – o Temerario (que significa corajoso) e o famoso Miura, denominação originada de uma raça de touros bravos.
Por outro lado, marcas como a chinesa BYD preferem resgatar referências históricas ou mitológicas para transmitir inovação e propósito em suas criações.
Nomes de carros vão além de meros rótulos; eles formam parte da identidade da marca
A seleção do nome de um veículo não é uma mera formalidade. Trata-se de um resultado abrangente que envolve pesquisa mercadológica, avaliação cultural e construção identitária com estratégias robustas de branding.
Cada nome carrega consigo uma mensagem única e frequentemente reflete a essência do que aquele automóvel representa tanto para a montadora quanto para os consumidores.
Seja através de números ou siglas inspiradoras, o fundamental é que o nome crie uma conexão emocional significativa, reconhecimento imediato e valor agregado à marca.
De fato, todo motorista compreende: embora o nome não faça um carro andar por si só, ele certamente facilita sua aceitação no coração (e na carteira) dos consumidores.
